O Choque dos Dados
Durante a COP 30, a Embrapa Territorial apresentou um dos levantamentos mais completos já feitos sobre o território brasileiro: “Atribuição, Ocupação e Uso das Terras no Brasil 2025”, chamado por muitos de “o retrato mais fiel do território”. E um dado impressionou o mundo: 65,6% do Brasil está coberto por vegetação nativa preservada.
Esse número levanta uma pergunta inevitável e provocativa:
Como o Brasil consegue ser, ao mesmo tempo, potência agrícola, alimentar o mundo e ainda manter dois terços do território sob vegetação nativa?
A resposta está nos detalhes revelados pelo estudo.
I. O Fiel da Balança: A Regra do 2 por 1
O dado mais simbólico do levantamento é simples e poderoso:
Para cada 1 hectare cultivado no Brasil, 2 hectares de vegetação nativa são preservados.
Esse indicador, apresentado pela Embrapa Territorial na COP 30, evidencia um equilíbrio raro entre produção e conservação especialmente para um país de dimensões continentais e um dos maiores produtores agrícolas do planeta.
E o impacto não para por aí:
Dentro de imóveis rurais, são 246,7 milhões de hectares dedicados à preservação da vegetação nativa, uma área equivalente a toda a Europa Ocidental da costa de Portugal aos Cárpatos, englobando 18 países.
Ou seja: só a preservação existente dentro das fazendas brasileiras supera metade de toda a extensão da Europa geográfica.
II. O Guardião das Florestas: O Papel do Produtor Rural
Outro dado central: 29% de todo o território brasileiro está preservado dentro de propriedades rurais.
Isso significa que o produtor rural — agricultor ou pecuarista — não apenas produz, mas também é um guardião direto da vegetação nativa.
Esse cenário é impulsionado principalmente pelo Código Florestal Brasileiro, que exige a manutenção de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reserva Legal (RL) dentro dos imóveis rurais. Em muitos países, a proteção ambiental é concentrada em áreas públicas; no Brasil, ela é compartilhada com quem produz alimentos, fibras e energia.
A soma é uma realidade singular no mundo:
O campo brasileiro conserva mais vegetação nativa dentro das fazendas do que o governo federal conserva em unidades de proteção ambiental.
III. O Uso da Terra em Detalhes
Apesar de ser destaque global em soja, milho, algodão, carne bovina, frango, café e uma lista crescente de produtos, a agropecuária ocupa menos de um terço do território nacional.
Veja a distribuição geral:
- 10,8% – Lavouras
- 19,4% – Pastagens
- 1,1% – Silvicultura
Totalizando 31,3% do Brasil dedicado à produção agropecuária.
Em outras palavras:
Cerca de 70% do país não é utilizado para produzir.
Esse dado quebra um mito recorrente no debate público e revela que a expansão da produção brasileira ocorreu muito mais por tecnologia e aumento de produtividade do que por abertura de novas áreas.
IV. Os Recortes por Bioma: Amazônia e Cerrado
Amazônia: preservação continental
O estudo mostra que a Amazônia brasileira mantém mais de 80% de sua área preservada.
A agropecuária ocupa apenas 14% do território amazônico — sendo 2% de lavouras e 12,1% de pastagens.
Além disso, mais de 1 milhão de produtores rurais geram renda na região graças à atividade agropecuária, mostrando que conservação e desenvolvimento social caminham juntos.
Cerrado: o bioma sob maior pressão
Já no Cerrado, o retrato é mais complexo:
- 52% do bioma segue preservado,
- 46% é ocupado pela agropecuária.
O Cerrado, berço das águas e grande fronteira agrícola brasileira, é também a região que mais demanda atenção em políticas de uso do solo e conservação.
A comparação entre os biomas reforça: o Brasil preserva muito — mas também enfrenta desafios reais, que exigem gestão e ciência.
Resumo: O Desafio Agroambiental Brasileiro
Os dados apresentados na COP 30 mostram, com clareza e precisão, que o Brasil reúne condições únicas para ser reconhecido como uma verdadeira potência agroambiental. Poucos países no mundo conseguem produzir em alta escala e, ao mesmo tempo, preservar 65,6% de seu território com vegetação nativa.
Mas o estudo também aponta o próximo passo:
não basta medir área — é preciso garantir qualidade da conservação, implementar integralmente o Código Florestal e reduzir emissões ligadas ao uso da terra.
A agricultura brasileira já provou que pode crescer com tecnologia e intensificação sustentável. Agora, o desafio é evoluir ainda mais, unindo produção, preservação e combate rigoroso ao desmatamento ilegal.
Agora é com você
Como você acredita que o Brasil pode avançar ainda mais para unir alta produtividade com a meta de desmatamento zero?
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